Pela autonomia dos movimentos sociais, pelo anarquismo organizado lado a lado nas lutas.

O Dia 09 de abril de 2016 representará para nós da OAZ, e para todas e todos que acreditam e contribuem para o anarquismo organizado, um símbolo, não somente pelo ato de fundação ‘formal’ de nossa organização, mas por ter sido mais uma atividade construída em conjunto e no contexto e realidade de parte dos movimentos de periferia.

Após alguns meses de articulação, reuniões e formação sobre a necessidade e importância da organização anarquista, parte desse projeto a nível de Piauí tomou forma neste último sábado. A OAZ já vinha atuando em produções textuais, participação em alguns atos e em diálogos com comunidades da periferia de Teresina, no sentido de desenvolver articulações de lutas populares nos bairros periféricos de Teresina.

Nós, anarquistas, enquanto organização, devemos estar lado a lado do povo construindo em conjunto iniciativas fortes e combativas, que elevem a força popular para destruir toda estrutura do Estado e Capital. É preciso, para tanto, disciplina, unidades e um programa que embase nossas ações coletivas para os fins que pretendemos alcançar. É com estes intuitos que a OAZ se insere na história do anarquismo.

Os laços que vão sendo estabelecidos tem suma importância para efetivação do projeto de luta que busca incessantemente a construção de uma outra realidade possível. O dia 09 serviu como um marco para nossa organização, por sua fundação e pelos afinamentos concatenados entre a OAZ e o movimento Social Fome. A proximidade das cidades e dos entendimentos são indispensáveis e renovam o gás para a realização de mais ações conjuntas entre as organizações. O ciclo de debates promovido, com a temática Anarquismo e Movimentos Populares, gerou reflexões em torno da necessidade da autonomia dos movimentos populares, e reforçou o nosso dever de atuar com estes movimentos a partir de uma perspectiva revolucionária, instigando e auxiliando nas frentes e levantes do povo.

A realidade política de alguns movimentos sociais demonstram com evidência a ausência da combatividade, do recorte classista, da cooptação e aparelhamento pelos partidos (em destaque ao PT e sua base governista) da burocratização, dos interesses escusos e alheios às necessidades do povo.

Cabe a nós, anarquistas, construirmos em conjunto com o povo, redes de ações que realmente lutem pela transformação radical da sociedade, caminho possível na destruição do Estado e do Capital. Assim atuará a OAZ. Em breve divulgaremos novas atividades já em construção.

VIVA O ANARQUISMO ORGANIZADO JUNTO AO POVO!

 

Escolas militares: domesticação de crianças a favor do capitalismo e do Estado

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Se os Colégios Militares não são uma novidade histórica no Brasil, o mesmo não se pode falar das escolas militarizadas, a nova modinha dos governadores estaduais. Sob o pretexto de melhorar a qualidade do ensino e resolver a (in)segurança escolar, as secretarias estaduais de educação têm entregue escolas públicas às polícias militares e ampliado programas educativos das PMs voltados a crianças e adolescentes. No Piauí, a estreita relação entre a secretária de educação Rejane Dias e a Polícia Militar rendeu, no ano de 2015, a implantação de duas escolas militares em Teresina. A meta da secretária é ter, pelo menos, uma escola desta natureza em cada região da capital. As escolas são administradas por militares e impõem aos alunos parâmetros organizacionais, morais e disciplinares rígidos e verticalizados.

O discurso oficial argumenta que as escolas militares são as melhores colocadas no ranking do MEC, ou seja, produzem bom resultados estatísticos, e que não registram problemas de violência escolar, ou seja, produzem bons resultados disciplinares. São escolas de orientação tecnicista e de disciplina rígida que tem como principal objetivo adaptar as pessoas ao sistema de exploração capitalista. Sob o véu da cidadania, ensinam os valores moralistas tradicionais, como amar a pátria, a igreja, e a família patriarcal, promovendo a homogeneização das diferenças e a padronização dos comportamentos. É uma educação que, por questão de princípio, só ensina a obedecer. Uma educação autoritária ao invés de libertadora (ou libertária). Domesticadora ao invés de subversiva. Conservadora ao invés de transformadora. Disciplinas como história e geografia perdem sua criticidade e disciplinas que estimulam o senso crítico, como filosofia e sociologia, são consideradas inúteis e relegadas a um plano subalterno. Discussões sobre gênero, raça, política, sexualidade são combatidas como males ideológicos em favor de temas que melhor conformam a juventude disciplinada, como civismo.

Outra ação que têm ganho destaque na gestão da secretaria Rejane Dias é a ampliação do Pelotão Mirim do RONE, existente desde 2010. Recentemente, o Major Ronald de Moura, diretor administrativo da SEDUC, afirmou que a militarização é uma alternativa para a juventude. No momento em que o país inteiro debate justamente a necessidade de desmilitarizar as polícias estaduais, uma das mais letais do mundo, com índices superiores a zonas de guerra, o Major propõe que se ofereça a juventude da periferia uma estrutura violenta e corporativa como alternativa de vida. Confunde-se reprimir com educar. Ao invés de oferecer às crianças e adolescentes possibilidades educacionais em sentido amplo, bem como melhorias concretas das condições de vida e trabalho, opta-se por construir pelotões de obedientes.

Frente de Educação da OAZ (em construção)

Contra o aumento 2016: movimento de resistência por um transporte público livre

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Foto: Igor Prado – Contra o Aumento 2011

Chega o fim de ano, toda classe trabalhadora está desgastada com discorrer do ano, tenta ao menos, festejar envolta em sentimentos de várias origens (inclusive capitalista), mas busca renovar suas energias para tentar uma vida melhor, através do labor de sua força de trabalho no ano que virá. Nesse bojo que Estado e Capital faz um pouco mais das suas, tomando e ‘legalizando’ atos que, colocados na prática, são verdadeiros ataques às condições de trabalhadoras e trabalhadores, além de já estarem guarnecidos contra qualquer força que possa, em pouco tempo, minimamente se organizar.

Fica evidente nos exemplos do aumento da passagem de ônibus em Aracaju (na época do Natal), já ocorreu por várias vezes em Teresina, na virada do ano, e, mais uma vez, o quadro que se desenha é para que se aconteça mais um aumento na calada da noite. A Prefeitura de Teresina juntamente com o SETUT, manobram um aumento de R$ 2,50 para R$ 2,83. E sabemos que esse aumento passará.

A esquerda organizada, certamente se colocará como resistência ao ato da prefeitura, mas já começamos tardiamente a organização. A construção das pautas da classe trabalhadora deve ser a todo instante energizada, especificadamente num ponto, quando a conjuntura demonstrar a necessidade, mas sem deixar as outras pautas em segundo plano. Começamos falhando numa possível organização de resistência ao aumento da passagem. Falharemos mais ainda se concentrarmos as forças na estruturação de alguma entidade ou espaço burocrático, que visa, entre seus objetivos, participar de acordões na bancada dos poderosos, lugar a ser desestabilizado e não local de debate, de construção de acordos.

Primeiramente porque nunca será de interesse do Estado e do Capital atender às demandas da classe trabalhadora, embora temos sim que pressionar mais e mais por pautas que tratam de direitos (ao mesmo tempo que provocamos e construirmos outras formas de organização); em segundo lugar, porque uma comissão nunca conseguirá atender em representatividade, nem na realidade específica de determinadas trabalhadoras e trabalhadores em relação ao transporte (e em tantas outras pautas). A iniciativa de setores da esquerda organizada acaba por perder sua capacidade de resistência logo no início.

O que fazer então diante desta situação? Como dissemos, falhamos neste possível aumento, mas podemos começar a nos articular de maneira mais enfática a partir de agora. Trabalhadoras e trabalhadores é quem sabem do que sofrem diariamente com atraso de condução, péssimas condições de ônibus, que não possuem a devida adaptação ao clima da região; sofrem com um orçamento estourado para poder se deslocar, sofre com falta de ônibus próximo ou relativamente próximo ao seu domicílio, sofre com um modelo de integração que não contempla a realidade da cidade, ainda tem o transporte interestadual, que não é contemplado pela integração com o argumento de que é interestadual, mas sempre que há reajuste, sofrem o aumento também. O sistema não se importa. Ele quer gerar lucro. E ao contrário do que choram nas mídias hegemônicas, o transporte urbano de Teresina gera lucro exorbitantes para os empresários do ramo. Chega de sustentarmos a iniciativa privada e o Estado. Nós é que devemos ser agentes de organização do nosso sistema de mobilidade, para que ele possa atingir e alcançar à todas e todos, de forma responsável e organizada.

É hora de aproveitemos o momento que se apresenta para irmos às ruas sim, dialogarmos com as pessoas, mostrarmos que não aceitamos as manobras da prefeitura ao tentar barrar o movimento que pretende ocupar as ruas com seus protestos e insatisfações, não adianta congelar passagem para xs estudantes, enquanto trabalhadores e trabalhadoras estão sofrendo com o preço da condução, que não condiz com a realidade local e um transporte totalmente precarizado; não aceitamos mais o mito da infalibilidade da planilha de custo da STRANS. Agora é o momento para chamarmos a todas e todos para participar do seio da luta; que nesse processo de construção do contra aumento 2016, nós organizemos fóruns livres e abertos com objetivos a curto, médio e longo prazo, sem acordão que nos oprime, com total poder à classe trabalhadora. E esse é um chamado para trabalhadores e trabalhadores ocuparem as ruas, levarem suas reivindicações e buscar não só a redução da passagem, mas à luta por um transporte público de qualidade e livre.

Uma defesa ao PT ou a formulação de uma nova política?

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A aceitação do pedido de impeachment de Dilma Roussef pelo Eduardo Cunha, alvoroçou diversos espaços de discussão, sobre a possibilidade de considerar tal fato, como pretenso golpe organizado pela direita. Debates que ressoaram também nos setores reformistas e nos revolucionários. Obviamente, que de formas bem distintas.

Desde as eleições de 2014, problematizando a frase do anarquista Wayne Price (firmeza nos princípios, flexibilidade nas táticas), dentro dos espaços anarquistas, muito se viu de falta de firmeza nos princípios libertários/revolucionários e fluidez nas táticas. Fato evidenciado nos chamados votos críticos a Dilma em detrimento do projeto de direita apresentado pelo PSDB.

Passado quase um ano, onde observou-se (constatou-se) os mesmos acordos, os mesmos grupos negociando fatias de poder, onde mais uma vez o aparato do Estado enlaçado com o Capital não demonstrou nada de novo para os anarquistas organizados, eis que como uma cereja de um bolo tosco e mal feito, surge a problemática do impeachment. Ora, que caiam todos, poderíamos simplesmente dizer.

Há nessa conjuntura uma crise programática, de projeto, no Brasil. Os maiores movimentos de massas brasileiros têm uma dependência ao antigo projeto democrático popular que norteou o surgimento do PT e que embasa de forma direta ou não toda a esquerda reformista. O projeto democrático popular acredita que uma união de setores considerados “progressistas” de esquerda ao chegarem ao poder irão promover estatizações, reformas amplas (como agrária, urbana, na educação e na saúde) e ampliar princípios democráticos.

Mas na verdade vemos o que o PT para tentar pôr em prática seu programa político se aliou a direita e na verdade conseguiu pôr em prática um neoliberalismo dos mais sujos com políticas privatistas, redução dos direitos trabalhistas, incentivo ao genocídio de povos tradicionais e populações negras e pobres (não esqueçamos das UPPS), além de escândalos de corrupção e tantas outras patifarias.

Não diferente por migalhas ou as vezes nem por migalhas, mas por interesses políticos e privilégios, movimentos sociais ou melhor seus dirigentes, burocratizaram ainda mais as estruturas de luta, dificultando a articulação de lutas contra o estado e contra o capitalismo, como aparelhou-as como escudo de defesa dos interesses da elite (como fez a UNE, MST, CUT, movimentos de negros e negras e de mulheres por exemplo), o PT usou da velha desculpa de um projeto social democrata e traiu o povo. O pior de tudo é que outros setores da esquerda (reformistas, claro) continuam a utilizar discursos sociais-democratas para criarem uma nova forma de fazer política, como se fosse algo revolucionário como vemos setores do próprio governismo como a CONSULTA e outros “governistas críticos” como PSOL.

Esta realidade não possui nem um resquício embrionário do fogo da revolução. Porque não é num Congresso Encastelado que se faz a revolução; não é através do impeachment que perceberemos as barricadas se erguendo nas ruas. A nossa tarefa sempre foi construir as lutas de baixo pra cima e da periferia ao centro. Nenhum interesse, nenhum fractal de realidade das pessoas das quebradas, trabalhadoras e trabalhadores da cidade e do campo, “minorias” invisibilizadas se transformará por conta de tal fato.

Nós, anarquistas, devemos estar em plena ação com os movimentos sociais; e todas aqueles que se reivindicam revolucionários, deveriam também aprender com as lições trazidas da organização de estudantes em São Paulo; com Rojava, Chiapas e tantas outras experiências que dão exemplos nítidos de por onde podemos trilhar caminhos para transformação radical da sociedade. E como já dito, ela não se dará pelas vias da democracia representativa. Nunca será interesse de Estado algum, menos ainda do capital, que possamos alcançar a sociedade circular e horizontal, livre de opressão do homem pelo homem que tanto queremos.

Não vamos então adentrar na discussão sobre vai ter ou não vai ter golpe ou validade ou não validade de impeachment. Vamos mergulhar por completo na tarefa orgânica, com disciplina e responsabilidade, de provocar fissuras efetivas no Estado e começar de vez a construir o nosso futuro desejado. A briga entre os senhores nada mudará a realidade das oprimidas e oprimidos. Somente o poder distribuído entre todas e todos será capaz de provocar mudanças profundas na sociedade atual, pela ação direta, pelo federalismo e auto gestão.

Numa realidade e perspectiva para um futuro e para uma nova sociedade, há uma necessidade de ruptura com qualquer política ou pensamento governista e/ou pára-governista (grupos que não são governistas declarados, mas almejam estar no lugar do governismo), há uma necessidade de aproximação (que apesar das discordâncias, o momento pede união na perspectiva revolucionária, com responsabilidade) dos grupos marxistas (de diferentes vertentes que visem revolução social e não reformismos) como grupos anarquistas (bakuninistas e especifistas) para ampliarmos lutas conjuntas e solidificarmos um real programa político que a população desta nação acredite.

Viva o anarquismo!
Viva a revolução social!

 

Organização Anarquista Zabelê